sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Aos alunos dos terceiros anos de Cajati e Pariquera!

Reportagem Completa sobre radiação e os seus efeitos! Revista Época

 

O círculo rubro que domina a bandeira do Japão representa o Sol. Seu desenho, chamado de Hinomaru (disco solar) pelos japoneses, surgiu como flâmula de samurais no século XVI e está desde então entranhado na cultura e na imagem do país. O Hinomaru também pode ser visto como uma referência à tecnologia que ajudou a transformar o Japão em uma das maiores potências do planeta – mas que agora representa uma ameaça. Nosso Sol, como qualquer estrela do Universo, é um colossal reator nuclear. Em seu núcleo gasoso, a força gravitacional esmaga átomos de hidrogênio, que se rompem, gerando energia e formando átomos de hélio. A reação emite uma imensa quantidade de energia, principalmente na forma de luz e calor, que sustenta a vida na Terra. É uma reação de fusão nuclear. Bela, limpa e eficiente.
A versão humana dessa reação é menos perfeita. Desde o início do século passado, quando o avanço da física permitiu entender o que se passa no núcleo dos átomos, a ambição dos humanos é usar a força atômica para gerar energia (nos casos pacíficos) ou detonar bombas (na versão belicosa). Por enquanto, tudo o que conseguimos foi reproduzir, no interior de reatores nucleares, uma reação mais suja, de fissão nuclear. Em nossas usinas, átomos de urânio se quebram, gerando energia, mas também material altamente tóxico. Além de imperfeito, o processo é arriscado, como demonstrou o acidente na usina nuclear de Fukushima 1 (Fukushima Daiichi, em japonês), em Okuma, uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes. Atingidos por um terremoto e um tsunami, os reatores da usina des-pertaram o pesadelo nuclear. E reacenderam no resto do planeta o temor que parecia ter ficado para trás desde o desastre em Chernobyl, nos anos 80.
O colapso na usina de Fukushima não foi causado pelo terremoto – embora o tremor tenha atingido assombrosos 9 graus na escala Richter. O problema começou porque o terremoto cortou as linhas de energia que mantinham ligado o sistema de refrigeração dos reatores. Dentro dessas enormes câmeras de concreto, o combustível nuclear fica mergulhado em piscinas, que ajudam a diminuir o calor. Para casos como esse, as usinas contam com um segundo sistema de refrigeração, movido por geradores a diesel. Mas em Fukushima esses geradores estavam em uma área baixa e foram inundados pelo tsunami, a onda gigante provocada pelo terremoto. A água que envolvia o combustível nuclear esquentou a ponto de começar a evaporar. A pressão nos reatores aumentou, causando explosões que destruíram o telhado dos prédios onde eles ficam.
Sem água, as barras de metal que contêm o combustível radioativo podem derreter e deixar parte do material nuclear exposto. Os técnicos da Tepco, empresa responsável pela usina, acreditam que isso tenha acontecido em pelo menos dois dos seis reatores de Fukushima. No reator 1, parte da água do núcleo parece ter evaporado e causado o derretimento parcial das varetas de metal que guardam o urânio, o combustível nuclear. No reator 2, o caso seria ainda mais grave: o derretimento do combustível teria causado uma explosão capaz de danificar o concreto que reveste o reator. Isso aumentaria as chances de uma grande explosão, que liberaria para o ambiente parte do combustível altamente radioativo. Nos reatores 3 e 4 aconteceu algo semelhante, mas nas piscinas que guardam as varetas de combustível já usadas. Elas preocupam ainda mais. Gregory Jaczko, presidente da Comissão Regulatória Nuclear dos Estados Unidos, disse ter informações de que, no reator 4, a água da piscina de combustível usado teria evaporado completamente, deixando o material suscetível à explosão. Na dramática tentativa de controlar o desastre, uma equipe de 50 a 100 técnicos da Tepco tenta salvar Fukushima. Já chamados de camicases modernos, eles estão expostos a doses de radiação que podem levá-los à morte em questão de meses.
Cerca de 140 mil pessoas foram retiradas de um raio de 30 quilômetros em torno da usina. O governo americano aconselhou seus cidadãos a ficar a mais de 80 quilômetros dela. No dia 14, níveis de radioatividade dobraram em Tóquio, a 220 quilômetros ao sul da usina (embora ainda sem representar risco à saúde). A população da cidade começou a fugir para Osaka, mais ao sul. Até a tarde da sexta-feira, a situação ainda era grave. Na pior das hipóteses, o núcleo de um ou mais reatores pode derreter e vazar para fora das paredes de contenção. A única comparação possível é com Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Lá, a nuvem radioativa foi até 500 quilômetros, causando possível aumento nas taxas de câncer. Uma área de 4.300 quilômetros quadrados (quase três cidades de São Paulo) está inabitada há décadas. Especialistas acreditam que o estrago no Japão seria menor porque os reatores de Fukushima têm camadas de contenção. No melhor dos casos, mesmo que os técnicos consigam controlar a temperatura nos reatores, eles continuarão inutilizados. Constituirão um incômodo monumento ao risco nuclear.
               
O Japão, um dos países mais confiantes nas possibilidades da energia nuclear, virou agora também um dos que mais a temem. Retornou o fantasma dos horrores das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Na semana passada, os veículos de comunicação davam orientações para evitar o material radioativo que podia estar disperso no ar. Ao sair às ruas, o conselho era cobrir o máximo de pele possível, com luvas, cachecol e gorros. Um pano úmido deveria ir junto com a más-cara antigripe, no rosto. O problema é seguir essas ordens em um lugar devastado. Muitas cidades estão sem água, luz e gás. Muita gente que não mora na área evacuada deixou suas casas, com medo de não dar tempo de sair se o raio do perigo aumentar. “Com a falta de combustível em toda a região, as famílias vão enchendo o tanque de pouco em pouco e procurando abrigos cada vez mais distantes”, diz a taxista Yasuko Sato, de Yamagata, a 110 quilômetros da usina.
A simpatia pelos japoneses – e a apreensão em relação à energia nuclear – se espalhou pelo mundo, justamente no momento histórico em que a fusão de átomos fortalecia-se como alternativa num mundo preocupado com o aquecimento global. A história da energia nuclear pode ser entendida como um pêndulo. No início do século XX, ela era uma utopia. No final da Segunda Guerra Mundial, representou o horror das bombas. Nos anos 70, no auge da cultura tecnicista (e em meio à grande crise política do petróleo), foi saudada como a solução limpa e barata de que o mundo precisava. Os países desenvolvidos construíam 20 usinas por ano. Até que uma sequência de acidentes graves congelou a indústria nos anos 80. O ativismo antinuclear atingiu seu ápice, e ela parecia fadada à extinção. Mas, nos últimos dez anos, voltou como esperança para livrar o mundo (de novo) da dependência do petróleo. Desta vez, com o apoio até de alguns ambientalistas históricos, por não emitir gases responsáveis pelas mudanças climáticas. O americano Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace, se tornou porta-voz da indústria nuclear dos Estados Unidos. O ecologista britânico James Lovelock, que considera a Terra um organismo vivo, também apoia. “Não temos tempo para experimentar fontes visionárias de energia”, diz. Essa retomada pode estar em xeque de novo.
Com o acidente no Japão, muitos países voltaram a olhar com preocupação as usinas atômicas em seus quintais. A Suíça decidiu suspender as reformas das usinas atuais, que prolongariam seu funcionamento. A chanceler alemã, Angela Merkel, ordenou o desligamento total de sete usinas nucleares que funcionam há mais de duas décadas no país, bem como um abandono gradual da energia atômi-ca. A União Europeia (UE) diz que vai testar a resistência de suas centrais nucleares a terremotos, tsunamis ou atentados terroristas. Os 27 países membros do bloco prometeram discutir o fechamento das usinas mais antigas. Segundo o comissário da UE, Günther Oettinger, depois do acidente japonês o bloco pensará duas vezes antes de planejar qualquer expansão nuclear.
       
REFUGIADOS
Um soldado mede o nível de contaminação de uma criança em Ishinomaki, a 110 km da usina nuclear com problemas. Cerca de 140 mil pessoas foram retiradas de casa
Outros países, no entanto, foram mais ambíguos. A China anunciou que vai suspender, por enquanto, a construção de 27 reatores. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que o país freará os investimentos no setor. Afirmou que as 104 usinas do país foram projetadas para resistir “às condições mais extremas”, mas pediu “uma revisão exaustiva” dos projetos. O país tem reatores em áreas também sujeitas a terremotos e tsunamis, na Califórnia. Apesar disso, tanto o Congresso americano quanto a Casa Branca acreditam que os EUA precisam investir em energia nuclear. A Índia também solicitou a revisão dos sistemas de segurança de suas usinas, mas sem suspender investimentos.
O mundo pós-Fukushima não será homogêneo, e a energia nuclear provavelmente continuará prosperando em outras regiões. O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, afirmou que vai manter o plano de dois novos reatores, dizendo que o país não tem atividade sísmica. A Rússia, que planeja dez novos reatores, minimizou a ameaça. A companhia russa Rosatom é uma das maiores fornecedoras de tecnologia nuclear do mundo. A França ainda aproveitou o acidente japonês para vender sua própria tecnologia. Diante da crise em Fukushima, o presidente Nicolas Sarkozy disse que “as usinas francesas são mais caras porque são mais seguras”. Os russos, grandes exportadores da tecnologia, continuam conquistando parceiros. Seu mais novo cliente é a Turquia, que planeja construir duas centrais nucleares.
No Brasil, o desastre japonês parece não ter abalado as ambições nucleares do governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o programa brasileiro não vai mudar. Nem mesmo haverá revisão dos sistemas de segurança das usinas de Angra 1 e 2, no litoral do Rio de Janeiro. Aluizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, afirmou que vai manter o ritmo de construção de Angra 3 e os planos de expansão nuclear. Segundo Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), as usinas de Angra estão preparadas para enchentes e longe de áreas vulneráveis a desabamentos. Situadas 6 metros acima do nível do mar, estariam imunes a inundações. “Elas são projetadas para resistir a tornados e furacões e suportar terremotos de até 6,5 graus na escala Richter e ondas de até 7 metros.” Segundo a Eletronuclear, estatal responsável pelas usinas, os reatores brasileiros são projetados para resfriar sem bombeamento de água por motores elétricos, como os que falharam em Fukushima. A CNEN e a Eletronuclear pretendem construir quatro novas usinas no Nordeste. Elas não ficarão no litoral, porque o solo lá é poroso e não suportaria o peso das instalações.
               
Apesar da certeza das autoridades, as vozes críticas brasileiras ganharam força. “A afirmação do ministro Lobão não passa de uma patriotada”, diz o físico gaúcho José Goldemberg, de 82 anos, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-reitor da Universidade de São Paulo. Para ele, o Brasil deveria seguir o exemplo alemão e desligar gradualmente as usinas. O físico Luiz Pinguelli, diretor da Coor-denação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ, defende a interrupção do programa nuclear brasileiro. O ex-ministro do Meio Ambiente do governo Lula Carlos Minc, atual secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, diz que os riscos de acidente não compensam a implantação de novas unidades. “O Brasil precisa redimensionar o programa nuclear porque o sistema de segurança não foi equacionado e temos outras opções como a energia eólica, biomassa e luz solar.” O Brasil é um caso excepcional no quadro nuclear global porque dispõe de outras fontes de energia em abundância. Mas não é claro se as pressões bastarão para mudar a direção do governo.
A insistência na energia nuclear tem alguns motivos. O principal deles é que, apesar do risco de acidentes, os reatores oferecem outro tipo de segurança, mais valiosa para quem precisa abastecer cidades e indústrias. Eles produzem dia e noite, quaisquer que sejam as condições do vento, da incidência de sol, dos regimes de chuva. Também não dependem de petróleo importado de países instáveis. E, em condições normais de funcionamento, as usinas não poluem. A China estima que os riscos nucleares são pequenos ante as 350 mil mortes por ano atribuídas a problemas respiratórios causados pela fumaça do carvão. Há outra razão: é nas usinas nucleares que se produz o material necessário para construir bombas atômicas.
               
A evolução da tecnologia nuclear é marcada, desde seus primeiros passos, pela alternância entre a esperança e a descoberta desastrosa de perigos insuspeitados. A física e química polonesa Marie Curie, que praticamente descobriu a radioatividade, desenvolveu os primórdios da radioterapia, mas não sabia que podia se contaminar no laboratório. Morreu disso. De lá para cá, os empreendedores nucleares tentam aprender com os erros. Foram quatro acidentes graves com reatores. Cada um deles causado por um problema antes desconhecido (leia o quadro abaixo). Alguns duvidam que seja possível criar uma usina infalível. Para o sociólogo Charles Perrow, da Universidade Yale, nos EUA, os reatores são sistemas complexos que, nas raras situações de emergência, geram desdobramentos rápidos demais para ser dominados por operadores humanos. Há centenas de milhares de peças e partes móveis numa usina. O antropólogo americano Hugh Gusterson, da Universidade George Mason, especialista em segurança nuclear, diz que o reator perfeito está sempre a um passo de distância.
Os reatores são perigosos pela natureza de sua operação. A reação de fissão nuclear começa quando um nêutron, uma partícula subatômica, é absorvido por um átomo de urânio. Isso muda a estrutura do urânio. Ele fica tremendamente instável e instantaneamente explode, liberando energia, radiação e mais nêutrons. Para evitar que os novos nêutrons iniciem uma reação em cadeia (como na bomba a-tômica), o reator fica imerso em água destilada. Além de resfriar o reator, a água absorve a maioria dos nêutrons. O grande desafio é projetar sistemas de resfria-mento eficazes e seguros.
Cerca de 80% das usinas no planeta, incluindo Fukushima e Angra, usam água destilada para estabilizar a reação nuclear no reator. Os novos projetos de reatores, que talvez entrem em operação após 2030, substituem a água por moderadores tão exóticos como sódio (ou sal) ou chumbo derretidos. Como o sódio e o chumbo barram totalmente a radiação, um reator envolto numa “lava” de sal ou chumbo jamais emitiria radioatividade para o meio ambiente. A dificuldade é encontrar um jeito de montar uma estrutura capaz de conter essas substâncias.
O governo brasileiro diz que vai manter as obras de Angra 3 e construir4 novas usinas
Apesar das inovações de projeto, o desastre em Fukushima mostra que, mesmo com todos os cuidados imagináveis, qualquer usina pode virar uma tragédia por uma causa impensável. Pode ser um problema técnico imprevisto, uma falha geológica não ainda detectada ou subestimada, talvez alguma sabotagem de grupos criminosos ou terroristas. Ou então a falha sistemática nos sistemas de regulação. Como pode ter acontecido em Fukushima. Segundo reportagem do jornal britânico The Daily Telegraph, um telegrama oficial do serviço diplomático dos EUA, obtido pelo site WikiLeaks, mostra que o governo do Japão havia sido avisado pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), em dezembro de 2008, de que os planos de segurança para algumas de suas usinas nucleares estavam desatualizados.

Para complicar, os investimentos em segurança tendem a ser limitados pela viabilidade econômica. Após os ataques terroristas em 11 de setembro de 2001, autoridades finlandesas decidiram aumentar a estrutura de concreto que protege a usina de Olkiluoto, a primeira em construção na Europa desde Chernobyl. Protegeria a unidade caso um avião fosse jogado em cima dela. A medida aumentou o custo da obra. Muitos países simplesmente não têm escolha. Os riscos reais são subestimados na hora de decidir pela construção de uma usina de energia, diz Cleo Paskal, pesquisadora da Chatham House, instituto britânico de análise de assuntos internacionais. Caso contrário, as medidas de segurança ficariam tão caras que inviabilizariam a obra. “Os riscos são ignorados até o ponto em que passa a fazer sentido construir uma usina em uma área sujeita a abalos sísmicos de grande magnitude”, diz Cleo. É o que pode ter acontecido no Japão. “Boa parte do país é coberta por montanhas, a densidade populacional é alta e a maior parte do território está sujeita a terremotos”, diz o americano Elmer Lewis, professor de engenharia nuclear da University Northwestern, nos EUA. “Não sobram muitos lugares para instalar uma usina.”        
       
Outro fator de risco nuclear não depende de engenharia: é a falta de informação. Foi o que agravou Chernobyl. Milhares de pessoas contraíram câncer porque beberam leite de vacas que pastaram em área contaminada. No Brasil, em 1987, já no período democrático, enquanto 249 pessoas se contaminavam com uma cápsula radioativa de césio 137, em Goiânia, o governo do Estado tentava dizer que era apenas “um vazamento de gás”. Parte da população japonesa também suspeita que as autoridades do país estejam filtrando os fatos. “O governo não está sendo transparente sobre o desastre nuclear”, diz a taxista Yasuko, que vê nas ruas as pessoas fugindo das áreas próximas à usina. “Tenho a impressão de que estou segurando uma bomba atômica.” Essa falta de transparência deverá ficar mais crítica se a expansão nuclear ocorrer, como tudo indica, em regimes autoritários, como a China, a Rússia e o Paquistão.
        Apesar dos riscos, abandonar as usinas é uma escolha difícil. A enfermeira Akiko Nishida, de 42 anos, que na semana passada cuidava de vítimas do terremoto em Sendai, parece entender o dilema. “É preciso repensar a segurança de nossas instalações”, afirma. “Mas o Japão de hoje precisa da energia. Não tem jeito.”
       
       
     
A reportagem completa,com as imagens vocês podem ler em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI219473-15227,00-DE+HIROSHIMA+A+FUKUSHIMA.html
        

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